Saúde mental não é quando a crise chega: é orçamento, acolhimento e SUS fortalecido

O Setembro Amarelo devolve ao debate público uma urgência que afeta milhares de famílias brasileiras: a saúde mental. No entanto, para a enfermeira sanitarista e professora da Universidade de Brasília (UnB) Fátima Sousa, candidata a deputada federal pelo PDT-DF, a prevenção ao suicídio não pode se limitar às campanhas de conscientização do mês de setembro. Ela precisa estar incorporada às políticas permanentes do Sistema Único de Saúde (SUS).

Com mais de 30 anos dedicados à saúde pública, entre assistência, ensino universitário e formulação de políticas, Fátima defende que cuidar da saúde mental significa reconhecer o sofrimento antes que ele se agrave.

“A prevenção não se faz quando a pessoa já atingiu o limite da dor. O cuidado de verdade começa muito antes, no posto de saúde perto de casa, quando há uma equipe qualificada para escutar, acolher e acompanhar esse cidadão ao longo do tempo. Saúde mental é direito e precisa de estrutura permanente”, destaca Fátima.

O papel do Congresso Nacional na saúde mental

Embora um deputado federal não gerencie diretamente Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), o Congresso participa da definição de leis, do Orçamento da União e da fiscalização das políticas públicas que sustentam o SUS.

Fátima aponta que o Congresso também tem papel importante no enfrentamento dos gargalos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), sistema que articula diferentes pontos de cuidado, da Atenção Primária aos CAPS, aos serviços de urgência e emergência e à atenção hospitalar.

Na prática, a atuação parlamentar pode envolver a discussão do financiamento federal da saúde mental, a proposição e o aperfeiçoamento de leis, o acompanhamento das políticas nacionais e a fiscalização da aplicação dos recursos públicos. O objetivo é verificar se o financiamento previsto chega aos serviços e se a rede tem condições de oferecer atendimento contínuo.

“Decisão política se mede no orçamento. Não adianta discurso bonito no Setembro Amarelo se faltarem recursos para contratar profissionais, estruturar os CAPS e manter a rede integrada. Uma deputada federal com vivência na saúde pública sabe onde o gargalo dói e onde o recurso precisa chegar”, afirma a candidata.

A prevenção começa perto de casa: da UBS à urgência

Para que a política de saúde mental funcione, a Atenção Primária precisa ser fortalecida como principal porta de entrada do SUS. Nas UBS, as equipes podem acolher pessoas em sofrimento, identificar necessidades de saúde mental e acompanhar os casos ao longo do tempo.

Quando a situação exige atendimento especializado, a rede precisa funcionar de forma articulada, conectando a Atenção Primária aos CAPS e, nos casos de urgência e emergência, a serviços como SAMU 192, UPAs e prontos-socorros. O Ministério da Saúde orienta que os diferentes pontos da RAPS trabalhem de forma integrada e que o cuidado tenha continuidade conforme as necessidades de cada pessoa.

“Hoje, um dos grandes desafios do SUS é garantir a continuidade. A pessoa não pode ser acolhida na UBS e depois ficar perdida em uma fila sem fim para o CAPS. As portas da saúde precisam se conversar. Cuidar de pessoas é garantir um caminho seguro de acolhimento e acompanhamento”, reforça Fátima.

Onde buscar ajuda

Se você ou alguém que você conhece precisa de apoio emocional ou passa por um momento difícil, procure acolhimento na rede pública de saúde:

  • UBS: porta de entrada do SUS para acolhimento, avaliação e acompanhamento em saúde, inclusive em saúde mental;
  • CAPS: serviços públicos especializados em saúde mental, com atendimento multiprofissional e articulado com outros pontos da rede;
  • Urgência e emergência: SAMU (192), UPAs e prontos-socorros;
  • Centro de Valorização da Vida (CVV): atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188.

Os CAPS também podem receber procura direta para o primeiro acolhimento, além de encaminhamentos feitos por UBS, hospitais, UPAs, SAMU e outros serviços.

Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é buscar atendimento de urgência ou acionar o SAMU pelo 192. O Ministério da Saúde também recomenda atenção a sinais de sofrimento e mudanças importantes de comportamento, especialmente quando se manifestam de forma persistente ou associadas a falas sobre morte ou suicídio.

Saúde mental também é uma decisão política

Para Fátima Sousa, o compromisso com a vida exige levar a experiência acumulada na saúde pública para o debate sobre as políticas nacionais.

“O Setembro Amarelo nos lembra de falar sobre a vida, mas as escolhas políticas precisam garantir que o cuidado continue nos meses seguintes. Saúde mental exige respeito, financiamento adequado, uma rede estruturada e políticas públicas permanentes”, conclui.