“Saúde de quem está em situação de rua exige rede integrada”, defende Fátima Sousa
Para a sanitarista, cuidado não pode terminar no atendimento de saúde: é preciso articular serviços e políticas de acompanhamento
Quem vive em situação de rua não deixa de ter direito à saúde. Mas, muitas vezes, o que leva uma pessoa a precisar de atendimento não começa na unidade de saúde, e também não termina nela. Pode envolver sofrimento psíquico, falta de moradia, ausência de renda, alimentação inadequada, rompimento de vínculos familiares ou dificuldade para acessar documentos e benefícios. São problemas diferentes, mas que podem acontecer ao mesmo tempo.
Para a candidata a deputada federal pelo PDT-DF, Fátima Sousa, é justamente aí que a política pública precisa mudar de lógica: em vez de cada área cuidar de uma parte da vida, os serviços precisam conversar entre si.
“Nenhuma política de saúde funciona quando cada secretaria cuida de uma parte da vida da pessoa. Se a saúde atende, mas a pessoa continua sem moradia, sem renda, sem alimentação e sem assistência, o problema continua. Cuidar exige olhar para a vida inteira”, afirma.
A discussão ganhou força no Distrito Federal em setembro, quando o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) cobrou informações sobre a estrutura disponível para atender a população em situação de rua. O órgão pediu ao governo um diagnóstico da rede e um plano para enfrentar as insuficiências identificadas.
Entre os pontos questionados estão a cobertura dos Consultórios na Rua, os serviços de saúde mental, vagas de acolhimento, profissionais especializados e a articulação entre saúde, assistência social e os demais órgãos envolvidos.
Quando uma porta não resolve
Para Fátima, o problema aparece justamente quando o atendimento é pensado como uma sequência de encaminhamentos. Uma pessoa pode procurar um serviço de saúde e precisar, além do atendimento, de acolhimento social. Pode necessitar de acompanhamento em saúde mental e, ao mesmo tempo, de uma solução de moradia. Pode precisar de documentação para acessar um benefício ou de apoio para reconstruir vínculos e voltar ao mercado de trabalho.

Se cada serviço enxergar apenas a sua própria atribuição, a pessoa pode acabar circulando pela rede sem encontrar uma resposta completa. “Não podemos transformar o cidadão em mensageiro entre as secretarias. Ele não pode sair de um serviço carregando um papel para conseguir chegar ao próximo. É o Estado que precisa organizar o caminho”, avalia.
Essa integração é especialmente importante na saúde mental. Situações de sofrimento psíquico podem exigir acompanhamento prolongado, e não apenas uma intervenção pontual. Por isso, Fátima defende que a atenção à população em situação de rua seja pensada a partir do território, com equipes capazes de construir vínculos e acompanhar as situações ao longo do tempo.
O papel do Congresso nessa rede
É nesse ponto que Fátima coloca a atuação federal. Como deputada federal, ela defende usar as atribuições do Congresso para fortalecer políticas nacionais, discutir o financiamento federal e acompanhar a execução dos recursos destinados às redes de saúde e proteção social.
A questão, para ela, não é simplesmente criar mais uma política, mas fazer com que as políticas existentes consigam funcionar de maneira articulada. “O Congresso precisa olhar para a saúde para além da consulta e do hospital. Quando falamos de situações complexas, precisamos perguntar se o financiamento federal está sustentando a rede, se os serviços conseguem conversar e se os recursos estão chegando ao território”, questiona.
A experiência na Saúde Coletiva é, para Fátima, uma ferramenta para enxergar essas conexões. A atuação legislativa, porém, precisa transformar essa visão em mecanismos concretos de financiamento, acompanhamento e fiscalização.
“Meu compromisso no Legislativo é ajudar a construir uma política pública que não obrigue a pessoa a escolher qual problema vai tentar resolver primeiro. O Estado precisa ser capaz de enxergar a pessoa inteira”, assegura.
Cuidar é não perder a pessoa no caminho
A população em situação de rua coloca um desafio importante para o SUS porque expõe os limites de uma política pública organizada em caixas separadas. Saúde tem uma responsabilidade. Assistência social tem outra. Habitação, trabalho e outras áreas também. Mas a vida real não respeita essas divisões.

É por isso que, para Fátima, uma rede de cuidado precisa funcionar de maneira diferente: as secretarias podem ter responsabilidades distintas, mas a pessoa não pode ficar sozinha entre elas.
“Uma política pública de verdade não é aquela que simplesmente encaminha. É aquela que acompanha. Se a pessoa entrou pela saúde, precisamos saber quem vai continuar cuidando dela. Se chegou pela assistência, precisamos garantir que consiga acessar a saúde. O importante é não perder a pessoa no caminho”, conclui.
Para a sanitarista, essa é uma das tarefas de uma política de saúde que se pretende integral: garantir que o direito ao cuidado não dependa da capacidade de cada pessoa de entender e atravessar a burocracia do Estado.
texto: Priscila Ferreira

