Cuidado não pode parar por falta de remédio, defende Fátima Sousa

O problema do medicamento não começa quando ele falta na farmácia. Para Fátima Sousa, enfermeira sanitarista, professora da Universidade de Brasília (UnB) e candidata a deputada federal pelo PDT-DF, o acesso ao tratamento depende de uma cadeia que começa muito antes da prateleira da unidade de saúde: passa pelo planejamento, pelo financiamento, pela compra, pelo armazenamento, pela distribuição e só termina quando o medicamento chega a quem precisa.

Com uma trajetória construída na Saúde Coletiva, na Atenção Primária, na formação de profissionais e na gestão pública, Fátima defende levar essa visão para o Congresso Nacional. Para ela, a atuação de uma deputada federal nesse tema passa por acompanhar a execução dos recursos federais, aperfeiçoar políticas públicas, fortalecer mecanismos de transparência e fiscalização e verificar se o investimento destinado à saúde está produzindo resultado na ponta.

“Medicamento não é um item isolado da assistência. Se ele não chega no momento certo, o tratamento também não chega. Por isso, precisamos acompanhar toda a cadeia: quanto foi planejado, quanto foi comprado, onde está o estoque e se o medicamento chegou à unidade onde a pessoa precisa dele”, afirma.

O medicamento tem um caminho antes de chegar à farmácia

O alerta do Ministério Público de Contas do Distrito Federal (MPCDF) sobre a execução orçamentária da saúde ajuda a colocar essa discussão em perspectiva. Em abril de 2026, o órgão apontou déficit de 77,05% na previsão de despesas com medicamentos, além de déficits em outros itens da assistência à saúde.

O dado reforça a importância de acompanhar não apenas quanto dinheiro é destinado à saúde, mas também como os recursos são planejados e executados. No SUS, a assistência farmacêutica envolve diferentes responsabilidades entre União, estados, Distrito Federal e municípios. No Componente Básico da Assistência Farmacêutica, por exemplo, estados, DF e municípios participam de etapas como seleção, planejamento, aquisição, armazenamento, controle de estoque, distribuição e dispensação, enquanto o financiamento é compartilhado.

Isso significa que o caminho do medicamento é também um caminho de gestão. “Quando o medicamento não está disponível, a pessoa enxerga apenas a prateleira vazia. A gestão precisa enxergar tudo o que aconteceu antes dela ficar vazia. É aí que entram planejamento, informação, estoque, compra e fiscalização”, avalia.

O Ministério da Saúde também mantém ferramentas de informação para acompanhar etapas da assistência farmacêutica, como entradas, distribuições e dispensações. Esses dados podem ajudar a gestão a identificar necessidades, acompanhar estoques e planejar a aquisição.

Não basta comprar: é preciso saber quanto e onde

Para Fátima, um dos pontos centrais está justamente na capacidade de planejar a necessidade da rede. Comprar medicamento depois que ele falta significa trabalhar de forma reativa. O planejamento precisa considerar o perfil da população atendida, os tratamentos acompanhados pela rede, o consumo histórico, os estoques existentes e as necessidades de cada território.

“Na saúde, planejamento também é cuidado. Se a gestão sabe do que a população precisa, consegue organizar a compra e a distribuição antes que a falta aconteça. O problema é quando o sistema só reage depois que a pessoa já está esperando pelo medicamento”, assegura.

A questão também envolve perdas, armazenamento e distribuição. Não adianta garantir a aquisição de um medicamento se ele permanece parado em um estoque, chega ao lugar errado ou não está disponível na unidade no momento em que a pessoa precisa.

Por isso, a assistência farmacêutica precisa ser acompanhada como uma cadeia completa, e não apenas pelo volume de compras realizadas.

O que isso tem a ver com o Congresso?

É justamente nesse ponto que Fátima relaciona a experiência acumulada na saúde pública ao papel que pretende exercer como deputada federal.

O Congresso participa da definição do Orçamento da União, da elaboração de leis e da fiscalização das políticas públicas e da aplicação dos recursos federais. Isso permite acompanhar não apenas quanto dinheiro chega à saúde, mas quais resultados são produzidos a partir desses recursos.

A atuação federal não substitui a responsabilidade de estados, Distrito Federal e municípios na execução da assistência farmacêutica. Mas pode contribuir para aperfeiçoar regras, mecanismos de financiamento, sistemas de informação e instrumentos de fiscalização.

“Na Câmara, quero olhar para o medicamento a partir do caminho que o dinheiro percorre. Quanto foi destinado? Qual era a necessidade prevista? O recurso foi executado? O medicamento foi comprado? Onde ele está? Chegou à unidade? Se não chegou, em qual etapa o processo parou? Fiscalizar também é fazer essas perguntas”, afirma Fátima.

Essa perspectiva muda a pergunta sobre o gasto público. Em vez de terminar a análise no momento em que o recurso é empenhado ou o medicamento é comprado, é preciso acompanhar o percurso até a entrega.

Da farmácia à casa

Para quem utiliza o SUS, a diferença entre um medicamento comprado e um medicamento disponível pode parecer apenas burocrática. Na prática, ela pode significar a continuidade ou a interrupção de um tratamento.

Por isso, o resultado da assistência farmacêutica precisa ser observado a partir do acesso. “O medicamento só cumpre sua função quando chega a quem precisa, na quantidade adequada, no momento adequado e dentro de um cuidado que acompanha aquela pessoa. Não adianta ter uma compra registrada no sistema se o tratamento não chegou à ponta”, afirma.

Essa visão também reforça a importância de integrar a assistência farmacêutica ao restante da rede. O medicamento faz parte de um cuidado que envolve consulta, diagnóstico, acompanhamento e continuidade. Quando uma dessas etapas falha, o problema pode reaparecer em outro ponto do sistema.

A experiência de Fátima no SUS ajuda a conectar essas diferentes dimensões. Sua trajetória na Saúde Coletiva e na gestão pública parte justamente da compreensão de que o funcionamento de uma política de saúde depende da articulação entre financiamento, planejamento, profissionais, serviços e capacidade de execução.

No debate federal, a assistência farmacêutica se torna um exemplo concreto de uma questão mais ampla: como garantir que o dinheiro público destinado à saúde percorra todo o caminho até se transformar em cuidado?

Para Fátima, acompanhar esse caminho significa olhar para o recurso, para a gestão e para o resultado. Porque a assistência farmacêutica não termina quando o medicamento é comprado: ela termina quando o medicamento chega onde o cuidado acontece.

Texto: Priscila Ferreira