Saúde das mulheres: como a sobrecarga e o território afetam o acesso ao SUS

Quando se fala em saúde da mulher, a imagem imediata costuma ser quase automática: pré-natal, exames ginecológicos e prevenção ao câncer de mama ou do colo do útero. Embora essenciais, esses cuidados cobrem apenas uma fração do que significa garantir qualidade de vida para mais da metade da população.

Demandas como saúde mental, menopausa, dignidade menstrual e atenção integral às vítimas de violência ainda enfrentam gargalos no cotidiano do Sistema Único de Saúde (SUS). A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Mulheres (PNAISM) estabelece que o acompanhamento deve cobrir todas as etapas da vida, mas a prática nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) ainda esbarra em visões fragmentadas.

“Quando falamos em saúde das mulheres, precisamos olhar para a mulher em todas as fases da vida. Isso significa reconhecer necessidades que muitas vezes ficam em segundo plano e organizar os serviços para que prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento façam parte de uma mesma rede de cuidado”, defende a enfermeira sanitarista Fátima Sousa. “Não podemos aceitar que a atenção à saúde seja reduzida apenas ao período reprodutivo.”

O tempo e o território como barreiras invisíveis

Para além da falta de médicos ou exames, o tempo e a rotina são os maiores obstáculos ao acesso. Dados do IBGE indicam que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais ao trabalho doméstico e ao cuidado de familiares, quase o dobro das 11,7 horas dedicadas pelos homens. Essa jornada sobrecarregada faz com que muitas adiem os próprios cuidados de saúde.

Horários inflexíveis dos postos, filas prolongadas e dificuldades de transporte público funcionam como barreiras que afastam as pacientes do atendimento necessário. “Não basta dizer que determinado serviço existe na rede. Precisamos saber se a mulher consegue chegar até ele e se encontra continuidade quando precisa de acompanhamento. A vida real exige planejamento territorial”, explica Fátima. “Se o posto fecha no exato momento em que a mulher sai do trabalho, a política pública falhou em seu objetivo central.”

Experiência de gestão a serviço do debate público

A crítica da sanitarista não vem do campo teórico, mas da prática acumulada em posições estratégicas da saúde pública. Como professora titular da Universidade de Brasília (UnB), ex-diretora da Faculdade de Ciências da Saúde e ex-superintendente do Hospital Universitário de Brasília (HUB), Fátima vivenciou a complexidade da gestão tanto na formação profissional quanto no atendimento hospitalar de alta complexidade.

Para ela, essa trajetória reflete diretamente no diagnóstico das falhas do sistema e nas soluções que precisam ser levadas à gestão pública e ao Poder Legislativo. “Gerenciar a saúde na ponta e na academia nos mostra que os problemas não são isolados. Quando o atendimento primário falha ou não é acessível, a sobrecarga estoura na porta do hospital regional e do hospital universitário. É essa visão integrada de rede que precisamos levar para as decisões políticas”, pontua.

O papel do Congresso na transformação do SUS

Traduzir diretrizes em atendimento humanizado exige enfrentar desigualdades de renda, raça e local de moradia. É justamente nessa ponte entre o planejamento e a execução que entra a atuação no Poder Legislativo federal.

Embora uma deputada federal não administre postos ou hospitais locais, cabe a ela atuar na definição do Orçamento da União, direcionar emendas orçamentárias para fortalecer a Atenção Primária e fiscalizar o uso das verbas públicas.

“Uma deputada federal precisa fazer a ponte entre aquilo que as pessoas enfrentam nas Regiões Administrativas e as decisões tomadas em Brasília. É levar a necessidade real do SUS para o debate sobre leis e orçamento, fiscalizando para que o planejamento saia do papel e chegue à população”, ressalta.

Reiterando seu compromisso com uma atuação pautada pela técnica e pela escuta social, a sanitarista conclui: “Minha experiência na Saúde Coletiva e na gestão universitária me ensinou que não basta criar uma política bonita no papel. É preciso conhecer a demanda, planejar, garantir recursos e acompanhar os resultados. É essa vivência técnica e humana que quero colocar a serviço do Congresso Nacional.”

por Priscila Ferreira