Menos fila, mais cuidado: por que esperar meses por um exame também é um problema de saúde
Candidata a deputada federal pelo PDT-DF, Fátima Sousa defende uma rede de saúde integrada, que considere as necessidades de cada território e use informações para reduzir o tempo de espera
Esperar por uma consulta, um exame ou uma cirurgia não é apenas uma questão de tempo. Para quem está do outro lado da fila, a espera pode significar dor, ansiedade, diagnóstico tardio e uma vida inteira organizada em torno de uma resposta que não chega.
Para Fátima Sousa, candidata a deputada federal pelo PDT-DF, enfrentar as filas do SUS exige ir além de contar quantas pessoas aguardam atendimento. É preciso saber quem está esperando, pelo quê, há quanto tempo e em qual região.
A proposta parte de uma mudança na forma de organizar a saúde pública: integrar os serviços, melhorar os fluxos de atendimento e planejar a rede a partir das necessidades reais de cada território.
A fila conta uma história
Uma fila de saúde não surge de forma inesperada. Ela pode revelar falta de profissionais, dificuldade de acesso a determinados exames ou procedimentos, concentração de serviços em algumas regiões ou problemas na comunicação entre diferentes pontos da rede.
Por isso, simplesmente aumentar o número de atendimentos nem sempre resolve o problema. É preciso entender onde está a demanda e por que ela se acumulou. Uma região pode precisar de mais equipes de Saúde da Família. Outra pode ter maior procura por determinado exame. Em outra, o gargalo pode estar na falta de especialistas ou na dificuldade de encaminhar o paciente para a próxima etapa do atendimento. Para Fátima, essa leitura precisa fazer parte do planejamento cotidiano do SUS.
Cada região tem uma necessidade

Não é possível planejar a saúde do Distrito Federal como se todas as regiões tivessem os mesmos problemas. A população, o perfil etário, as condições sociais, a oferta de serviços e a demanda por atendimento especializado variam de um território para outro.
Isso também precisa aparecer na gestão das filas. Saber que existe uma longa espera é importante, mas saber onde estão os pacientes e em que ponto da rede o atendimento está parando permite tomar decisões mais precisas.
“Quando conhecemos a demanda de cada território, conseguimos planejar melhor. Não adianta oferecer o mesmo serviço da mesma maneira para regiões que têm necessidades diferentes. A saúde precisa olhar para as pessoas onde elas vivem”, afirma.
Informação precisa virar decisão
Quantas pessoas aguardam? Qual é o tempo de espera? Quais são os exames e procedimentos mais procurados? Quais regiões concentram as maiores demandas? Para Fátima, essas perguntas precisam orientar as decisões da gestão pública, e não aparecer apenas em relatórios ou quando surge uma cobrança.
Os dados devem ajudar a identificar gargalos, definir prioridades e acompanhar se as medidas adotadas estão funcionando. “Não podemos administrar a saúde no escuro. Se uma região tem uma demanda maior, precisamos saber disso e agir. Se um serviço está acumulando pacientes, precisamos entender por quê.”
Integrar a rede para o paciente não ficar pelo caminho
Para quem utiliza o SUS, o caminho do cuidado muitas vezes passa por diferentes serviços: consulta, exame, especialista e, novamente, uma nova espera. Quando essas etapas não se comunicam, o próprio paciente acaba tendo que acompanhar um percurso que deveria ser organizado pela rede.
Fátima defende que os diferentes pontos do sistema trabalhem de maneira articulada, compartilhando informações e garantindo continuidade ao cuidado. “O paciente não pode ser o responsável por fazer a rede funcionar. Ele precisa ser cuidado pela rede. Quando os serviços conversam, conseguimos evitar atrasos e, principalmente, que uma pessoa fique sem saber qual será o próximo passo do seu tratamento.”
Menos fila começa antes do hospital

Reduzir filas não significa apenas fazer mais consultas, exames ou cirurgias. Significa compreender suas causas e atuar sobre elas. Isso pode significar ampliar equipes, reorganizar fluxos, descentralizar serviços, melhorar os encaminhamentos ou fortalecer a Atenção Primária para que parte das necessidades seja resolvida mais perto de onde as pessoas vivem.
É esse olhar que Fátima quer levar para o debate sobre saúde. Enfermeira sanitarista, com trajetória dedicada à Saúde Coletiva, ela é professora da Universidade de Brasília (UnB), foi diretora da Faculdade de Ciências da Saúde e superintendente do Hospital Universitário de Brasília (HUB).
Sua experiência na assistência, na formação de profissionais e na gestão de serviços sustenta uma visão em que a fila não é apenas um número, mas um sinal de que alguma parte da rede precisa ser compreendida e reorganizada.
“Uma fila é um sintoma. Precisamos investigar o que ela está nos dizendo. Se há muitas pessoas esperando, precisamos olhar para a estrutura, para os fluxos, para os profissionais e para a distribuição dos serviços. Só assim vamos conseguir construir soluções duradouras.”
Para Fátima, o objetivo é fazer com que o SUS seja capaz de identificar necessidades, antecipar demandas e acompanhar as pessoas ao longo do cuidado. “Quando uma pessoa procura o SUS, ela não está procurando apenas um serviço. Ela está procurando cuidado. Nosso compromisso precisa ser fazer com que ela encontre uma rede capaz de acolher, diagnosticar, tratar e acompanhar, sem deixá-la sozinha no caminho.”
Reportagem: Priscila Ferreira

