Reduzir a fila é urgente. Evitar que ela volte é o desafio
Programa federal prevê 37.560 procedimentos em 24 meses em Ceilândia. Para Fátima Sousa, atendimento imediato precisa vir acompanhado de uma rede capaz de prevenir o agravamento dos problemas de saúde
Quem espera meses por uma consulta, um exame ou uma cirurgia sabe que uma fila não é apenas um número. É dor, ansiedade, rotina interrompida e, muitas vezes, uma doença que pode se agravar enquanto o atendimento não chega.
Por isso, o anúncio de 37.560 procedimentos em 24 meses em Ceilândia, pelo programa federal Agora Tem Especialistas, representa uma resposta concreta para milhares de pessoas. São 34.960 procedimentos ambulatoriais e 2.600 cirurgias eletivas, com investimento de R$ 11,48 milhões e foco em áreas como ortopedia, ginecologia, oncologia e cardiologia.
Para Fátima Sousa, candidata a deputada federal pelo PDT-DF, a primeira leitura é direta: quem está esperando precisa ser atendido. A segunda é mais estrutural: uma política capaz de reduzir a fila precisa também entender por que ela se formou.
“Cada consulta realizada e cada cirurgia eletiva desobstruída representam dignidade para as famílias de Ceilândia e da Região Oeste de Saúde. Ver esses recursos aplicados onde a necessidade é urgente é um passo humano fundamental. Mas o olhar técnico nos obriga a enxergar além da resposta emergencial: ela mitiga o sofrimento imediato, mas não resolve, sozinha, a causa estrutural das filas”, avalia Fátima.

O atendimento que chega depois do problema

A atenção especializada é indispensável quando uma pessoa precisa dela. O desafio aparece quando o sistema passa a receber, em grande volume, problemas que poderiam ter sido identificados, acompanhados ou tratados antes de chegarem a esse estágio.
É nesse ponto que Fátima coloca a Atenção Primária no centro da discussão. “A matemática da saúde pública é clara: sem uma rede forte de atenção primária, capaz de diagnosticar precocemente, acompanhar doentes crônicos e fazer a prevenção adequada nas comunidades, a demanda represada na média e alta complexidade continuará infinita.”
A lógica é simples: quanto mais tarde um problema é identificado, maiores podem ser a complexidade do tratamento e a pressão sobre consultas especializadas, exames e hospitais.
Na prática, isso significa ter equipes completas, profissionais, insumos e capacidade de acompanhamento nos territórios. Significa também fazer com que a pessoa não apareça no sistema apenas quando a situação já exige uma resposta de maior complexidade.
“A Atenção Primária é o coração do SUS. É no posto de saúde da comunidade que a hipertensão e o diabetes podem ser acompanhados antes de se transformarem em situações de urgência, e onde o cuidado contínuo ajuda a identificar precocemente problemas de saúde. Se não garantirmos equipes completas, profissionais e insumos no atendimento básico, o sistema continuará sobrecarregado nas pontas”, avalia.
O que acontece depois da cirurgia?

A pergunta ajuda a ampliar o olhar sobre o anúncio. Uma cirurgia resolve uma necessidade concreta. Um exame pode finalmente esclarecer um diagnóstico. Uma consulta especializada pode iniciar o tratamento adequado. Mas o percurso do cuidado não termina necessariamente ali.
Quem será acompanhado depois? Onde será feito esse acompanhamento? Como evitar uma nova descompensação? O que acontece com quem precisa de tratamento contínuo?
Para Fátima, essas perguntas precisam fazer parte da própria estratégia de enfrentamento das filas. “Quem tem dor ou aguarda um diagnóstico oncológico não pode esperar. Cada procedimento liberado em Ceilândia significa sofrimento aliviado e dignidade restituída. Mas precisamos olhar também para o que acontece depois. O SUS precisa garantir continuidade do cuidado, e não apenas resolver uma etapa do atendimento”, afirma.
É uma perspectiva que muda o modo de avaliar os resultados. O número de procedimentos realizados importa, mas não conta toda a história. Também é preciso saber se o problema foi efetivamente enfrentado e se a pessoa conseguiu seguir seu tratamento dentro da rede.
Uma leitura de quem conhece a saúde pública por dentro
A análise de Fátima parte de uma trajetória construída em diferentes áreas do SUS. Enfermeira sanitarista e professora da Universidade de Brasília (UnB), ela foi diretora da Faculdade de Ciências da Saúde e superintendente do Hospital Universitário de Brasília (HUB).
Essa experiência permite que a candidata à Câmara dos Deputados olhe para a questão das filas para além da pressão imediata sobre hospitais e serviços especializados. “Minha trajetória na gestão e no ensino da saúde pública me ensinou que não existe solução isolada. Podemos ampliar a oferta especializada, e isso é necessário. Mas precisamos cuidar da rede que vem antes e da que vem depois. É essa integração que transforma uma ação emergencial em cuidado de saúde.”
É também nesse ponto que a discussão chega ao Congresso Nacional. Financiamento do SUS, orçamento federal, políticas nacionais de saúde e mecanismos de acompanhamento dos recursos fazem parte das decisões que sustentam a rede de atendimento.
Para Fátima, o debate sobre filas precisa, portanto, sair da lógica de uma disputa entre atendimento especializado e atenção básica. A população precisa dos dois, e precisa que eles funcionem juntos.

Resolver a urgência sem perder o futuro de vista
O programa federal anunciado para Ceilândia coloca milhares de procedimentos no horizonte dos próximos dois anos. É uma oportunidade para atender quem está esperando agora.
Mas, na avaliação de Fátima, o resultado mais importante será saber se o sistema terá capacidade de transformar esse esforço em aprendizado e planejamento. “Reduzir uma fila é importante. Mas uma política pública de saúde precisa olhar para o que acontece no dia seguinte. Se a demanda volta a crescer, precisamos saber por quê. Se uma doença chega tarde ao especialista, precisamos perguntar o que aconteceu antes. É assim que a gente deixa de apenas administrar filas e começa a organizar o cuidado”, conclui.
Para a sanitarista, essa é a diferença entre responder a uma emergência e construir uma política de saúde capaz de produzir resultados duradouros. Atender quem espera é urgente. Garantir que novas pessoas não precisem esperar tanto é o desafio estrutural.
Texto: Priscila Ferreira

