Onde falta mulher, falta metade das soluções
No Distrito Federal, número de candidaturas femininas caiu 26,9% em relação a 2022. Para Fátima Sousa, ampliar a presença das mulheres na política também significa levar novas experiências e soluções para os espaços de decisão
O Distrito Federal chega às eleições de 2026 diante de um retrocesso silencioso, mas profundo: as mulheres estão se afastando das urnas enquanto candidatas. São apenas 231 nomes femininos registrados neste ano, contra 316 em 2022, uma queda acentuada de 26,9%. O paradoxo fica ainda mais gritante quando se olha para as arquibancadas do eleitorado: elas representam 54,13% das pessoas aptas a votar na capital, mas ocupam pouco mais de um terço da lista nas urnas.
Para a enfermeira sanitarista e professora da Universidade de Brasília (UnB) Fátima Sousa, esse vácuo passa longe de ser um mero capricho estatístico. Ele atinge o coração da nossa democracia. Afinal, quando a presença feminina encolhe no debate público, desaparece junto com ela uma infinidade de vivências e olhares essenciais para resolver os dilemas da cidade.
“Quando diminui a presença das mulheres na disputa, não diminui apenas o número de candidatas. Diminui também a diversidade de experiências, de perspectivas e de formas de enxergar os problemas do Distrito Federal. Onde falta mulher, falta metade das soluções. É por isso que eu fico de pé”, afirma a candidata a deputada federal pelo PDT-DF.

Uma maioria que ainda é minoria na política
A conta simplesmente não fecha. Maioria absoluta nas ruas, nas salas de aula e nas filas de votação, as mulheres viram coadjuvantes na hora de ocupar as chapas partidárias. Em 2026, o DF contabilizou apenas 64 candidaturas femininas para a Câmara dos Deputados.
Essa enorme distância entre quem vive a cidade e quem de fato decide por ela precisa ser encarada como uma urgência democrática. As mulheres já são a espinha dorsal da saúde, da educação, do cuidado, da ciência e dos serviços públicos.
“Uma cidade não pode ser representada apenas por uma parte de quem vive nela. As mulheres estão na saúde, na educação, no cuidado, na ciência, no trabalho e nos serviços públicos. Quando essas experiências chegam à política, elas ajudam a revelar problemas que muitas vezes permanecem invisíveis”, contextualiza.
O que muda quando essas experiências chegam ao Congresso
A virada de chave acontece de forma muito concreta quando uma mulher conquista uma cadeira na Câmara dos Deputados. É naquele plenário que se desenha o orçamento federal, que se alinhavam leis nacionais e se fiscaliza para onde vai cada centavo dos impostos. Por isso, a urgência não é apenas ocupar o espaço pelo número, mas garantir que visões de mundo transformadoras cheguem ao Congresso para virar política pública.
“Uma mulher que chega ao Congresso não leva apenas a própria história. Ela leva para aquele espaço tudo aquilo que aprendeu ao longo da vida, da profissão e da relação com a sociedade. E isso precisa aparecer nas decisões sobre orçamento, políticas públicas, direitos e prioridades do país,”, avalia.



No caso de Fátima, essa bagagem traz a marca d’água da saúde pública. Com uma trajetória lapidada no SUS, como ex-diretora da Faculdade de Ciências da Saúde e ex-superintendente do Hospital Universitário de Brasília (HUB), ela conhece os dois lados do balcão: o da gestão e o do atendimento na ponta. No Legislativo federal, esse conhecimento prático ganha peso de ouro na hora de brigar pelo financiamento da saúde e pela alocação inteligente de recursos para a capital e para o país.
“A minha trajetória profissional me ensinou que as decisões tomadas em Brasília chegam à vida das pessoas. Uma escolha no orçamento, uma lei, uma política nacional ou a forma como um recurso é destinado pode fazer diferença na ponta. É por isso que ocupar uma cadeira no Congresso também significa assumir responsabilidade sobre essas decisões”, afirma.

Mulheres não são uma pauta isolada
Se faltam mulheres nos cargos eleitos, não é por falta de preparo ou capacidade de liderança. O gargalo é estrutural: a política tradicional impõe barreiras invisíveis, como redes de apoio restritas e a rotina sufocante do trabalho doméstico e do cuidado. O resultado dessa engrenagem viciada é uma gestão pública desconectada da vida real.
“Quando uma mulher participa de uma decisão, ela leva consigo conhecimentos construídos na vida real. Ela sabe o que significa conciliar trabalho e cuidado, enfrentar uma fila no serviço público, acompanhar a educação dos filhos ou sustentar uma família. Essa experiência também é conhecimento para formular políticas públicas”, assegura.
Essa sensibilidade não é um tema à parte; ela perpassa todas as áreas do Estado, da segurança pública à economia, influenciando diretamente a qualidade de vida de toda a população.

Uma cadeira também representa uma história
É nesse cruzamento entre vivência e representatividade que a candidatura de Fátima ganha contornos de propósito. Disputar uma vaga na Câmara dos Deputados é a oportunidade de transformar décadas de dedicação ao cuidado, ao ensino superior e à saúde pública em voz ativa na formulação de leis.
“Eu fico de pé porque sei o quanto foi difícil para tantas mulheres que vieram antes de nós. Nenhuma mulher chega sozinha. Há sempre outras mulheres que abriram caminho, sustentaram famílias, estudaram, trabalharam e enfrentaram obstáculos para que outras pudessem chegar mais longe.”
Mais do que ocupar um assento no plenário, trata-se de honrar os passos de quem veio antes e abrir portas para as que virão. Para Fátima, é preciso ir além do simbólico para transformar a estrutura de poder por dentro.
“Eu não quero uma política em que as mulheres apareçam apenas para completar uma fotografia. Quero uma política em que elas estejam onde as decisões são tomadas, levando sua experiência, sua competência e sua capacidade de construir soluções”, conclui.
Texto: Priscila Ferreira

