“Fila de cirurgias no DF não pode ser tratada como rotina”, afirma Fátima Sousa
Candidata a deputada federal defende gestão transparente das listas de espera, fortalecimento da Atenção Básica e planejamento estratégico para devolver a dignidade aos usuários do SUS
Esperar meses, ou até anos, por uma consulta, um exame ou uma cirurgia não pode ser tratado como parte normal da vida de quem depende do Sistema Único de Saúde. Para a enfermeira sanitarista Fátima Sousa, enfrentar as filas do SUS exige mais do que ações pontuais: é preciso conhecer o tamanho do problema, identificar onde estão os gargalos e organizar a rede para que o paciente não fique perdido entre uma etapa e outra do atendimento.
A questão voltou ao centro do debate sobre a saúde pública do Distrito Federal. Dados e discussões recentes mostram que a espera por procedimentos eletivos, exames e consultas especializadas continua sendo um dos principais desafios para quem precisa da rede pública.
Fátima fala sobre o tema a partir de uma trajetória dedicada à Saúde Coletiva. Professora da Universidade de Brasília (UnB), foi diretora da Faculdade de Ciências da Saúde e superintendente do Hospital Universitário de Brasília (HUB). Ao longo da carreira, acompanhou de diferentes perspectivas os desafios da gestão, da formação de profissionais e da organização do sistema público de saúde.
É essa experiência que sustenta sua avaliação de que a fila precisa deixar de ser vista como consequência inevitável do SUS e passar a ser enfrentada como um problema de gestão, planejamento e cuidado.
“A fila não pode ser apenas um número em um painel. Do outro lado de cada solicitação existe uma pessoa que está sentindo dor, esperando um diagnóstico, afastada do trabalho ou vivendo com a ansiedade de não saber quando vai conseguir atendimento”, afirma Fátima.
O problema começa antes da cirurgia
Na avaliação da candidata, reduzir filas de forma sustentável passa por olhar para toda a trajetória do paciente dentro do SUS. Uma cirurgia que demora a acontecer muitas vezes é o resultado de uma sequência de dificuldades anteriores: demora para conseguir consulta especializada, espera por exames, falta de integração entre os serviços e dificuldades para dar continuidade ao tratamento.
“Não adianta simplesmente fazer um mutirão e, alguns meses depois, a fila voltar a crescer. Precisamos enfrentar as causas da espera e organizar a rede para que o paciente tenha continuidade no cuidado”, defende.
Essa visão está alinhada à própria lógica dos programas federais de redução de filas, que buscam ampliar o acesso não apenas a cirurgias, mas também a exames e consultas especializadas. O Ministério da Saúde prevê organização da demanda, financiamento e monitoramento da execução das ações.
Três frentes para diminuir a espera
TRANSPARÊNCIA
A proposta de Fátima parte de três frentes que precisam funcionar de maneira articulada. A primeira é transparência. Para ela, o DF precisa transformar os dados das filas em uma ferramenta de gestão e de informação para a população. É necessário acompanhar tempo de espera, demanda reprimida, prioridades clínicas, capacidade de atendimento e distribuição regional dos serviços.
“A fila precisa ser pública, compreensível e acompanhada. Se sabemos onde estão as maiores esperas, podemos direcionar recursos e capacidade de atendimento para onde o problema é maior”, explica.
ATENÇÃO BÁSICA
A segunda é fortalecer a atenção básica. Quanto mais resolutiva for a porta de entrada do SUS, menor a pressão desnecessária sobre especialistas, ambulatórios e hospitais. O acompanhamento de doenças crônicas, a prevenção e o diagnóstico precoce também ajudam a evitar que problemas de saúde se agravem e cheguem ao sistema em situações mais complexas.
ATENÇÃO ESPECIALIZADA
A terceira é ampliar e organizar a capacidade da atenção especializada. Isso significa planejar a oferta de consultas, exames e cirurgias de acordo com a demanda real de cada região, aproveitar melhor a estrutura existente e estabelecer metas de redução das filas que possam ser acompanhadas pela população.
“Precisamos parar de administrar a fila apenas quando ela explode. Saúde pública exige planejamento. É preciso saber quantas pessoas estão esperando, por quê, onde estão e qual capacidade temos para atender essa demanda”.
Fátima Sousa
Sanitarista e candidata a Deputada Federal
Cada região precisa ser vista de perto

Outro ponto central defendido por Fátima Sousa é que a saúde no Distrito Federal não pode ser planejada de forma genérica, como se todas as regiões administrativas tivessem os mesmos problemas. A demanda por consultas especializadas, exames e cirurgias varia drasticamente de uma cidade para outra.
Por isso, ter dados detalhados e territorializados, que indiquem o tempo de espera real, a classificação de risco e a situação dos pacientes em cada região de saúde, precisa ser a base permanente das decisões de governo, e não apenas uma resposta a cobranças pontuais.
“Quando o poder público conhece a fundo a demanda de cada território, ele consegue planejar melhor e investir com precisão. Saúde pública não pode ser administrada no escuro. Precisamos usar a informação e a evidência científica para tomar decisões acertadas, garantindo que o recurso público chegue exatamente onde a dor das pessoas é maior”, destaca Fátima.
Menos espera, mais cuidado
A defesa de Fátima é que a redução das filas seja tratada como parte de uma política permanente de fortalecimento do SUS, e não como uma ação emergencial.
Isso significa combinar atenção básica forte, especialistas suficientes, exames disponíveis, hospitais estruturados, profissionais valorizados e sistemas de informação capazes de acompanhar o paciente em toda a sua trajetória.
“Uma pessoa que espera por uma cirurgia não está esperando apenas por um procedimento. Ela está esperando para voltar a trabalhar, para dormir sem dor, para cuidar da família, para recuperar sua autonomia. O tempo de espera também é uma questão de qualidade de vida”, afirma.
Para Fátima, colocar o paciente no centro da política de saúde é o ponto de partida para mudar a lógica das filas. “O SUS tem capacidade de fazer muito mais. O que precisamos é de planejamento, integração e compromisso com quem está esperando. A saúde pública precisa chegar antes da doença se agravar e não abandonar o cidadão no meio do caminho.”
Reportagem: Priscila Ferreira
