Fila de 13,8 mil na urologia expõe desafio que Fátima Sousa leva para o debate federal
Diante da decisão do MPDFT, que deu 60 dias para o Distrito Federal apresentar um plano para enfrentar a espera, a sanitarista Fátima Sousa apresenta uma trajetória que reúne Atenção Primária, gestão hospitalar e formulação de políticas públicas
A fila de urologia do Distrito Federal chegou a 13.821 pessoas. Agora, além da espera, há um prazo: a Justiça determinou, após ação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que o governo local apresente em 60 dias um plano para enfrentar a demanda e um diagnóstico da capacidade de atendimento da rede.
O número expõe um problema que Fátima Sousa, candidata a deputada federal pelo PDT-DF, conhece de diferentes lados do SUS. Enfermeira sanitarista, professora da Universidade de Brasília (UnB) e ex-superintendente do Hospital Universitário de Brasília (HUB), ela atuou na construção da Atenção Primária, na formulação de políticas públicas e na gestão hospitalar.
Para Fátima, uma fila dessa dimensão não pode ser enfrentada apenas pela abertura de consultas. É preciso entender o que acontece antes que a pessoa chegue ao especialista: profissionais disponíveis, capacidade instalada, regulação, equipamentos, financiamento e organização da rede.
“Uma fila de 13 mil pessoas não começa quando o nome entra no sistema. Ela começa muito antes. Quando milhares de pessoas chegam ao mesmo gargalo, é preciso olhar para a rede inteira e descobrir onde a capacidade deixou de acompanhar a necessidade”, afirma.
Uma trajetória construída dentro do SUS
A experiência de Fátima começa muito antes da gestão hospitalar. Na década de 1990, sua atuação no Ministério da Saúde esteve ligada à implantação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e à construção da Estratégia Saúde da Família. Foi uma experiência diretamente relacionada à organização da Atenção Primária a partir do território e do acompanhamento das famílias.
Anos depois, à frente do HUB, passou a lidar com outra dimensão do sistema: a gestão de uma instituição que reúne assistência, ensino, pesquisa e inovação dentro do SUS. É a combinação dessas experiências que, para Fátima, permite enxergar a fila por inteiro.
“Eu conheço o SUS de lugares diferentes. Conheço a Atenção Primária, conheço a formação dos profissionais e conheço a gestão hospitalar. Isso muda a pergunta diante de uma fila. Não basta saber quantas pessoas estão esperando. É preciso saber por que chegaram a esperar, onde a rede perdeu capacidade e o que precisa mudar”, avalia.
Da experiência na saúde à atuação na Câmara
É nessa passagem que Fátima estabelece a relação entre sua trajetória profissional e a atuação de uma deputada federal. A Câmara dos Deputados participa da elaboração das leis, da definição do Orçamento da União e da fiscalização da aplicação dos recursos públicos. Para Fátima, a experiência de quem já esteve dentro da gestão permite levar ao debate federal perguntas concretas sobre como o dinheiro público se transforma, ou não, em capacidade de atendimento.
“Eu não quero discutir saúde no Congresso apenas olhando para números do orçamento. Quero discutir o que aquele recurso precisa produzir: equipe, equipamento, serviço funcionando, formação profissional, tecnologia. E quero acompanhar a execução para saber se o investimento chegou onde deveria chegar”, assegura.
Essa perspectiva também alcança as emendas parlamentares. Para Fátima, indicar recursos precisa estar associado ao planejamento da rede e ao acompanhamento de sua execução.
A questão é particularmente relevante diante de filas que se acumulam ao longo do tempo. Um investimento pode ampliar uma estrutura, mas, sem profissionais, manutenção, equipamentos e organização do serviço, a capacidade criada pode não ser suficiente para responder à demanda.
“Quem já esteve na gestão sabe que dinheiro sozinho não atende ninguém. O recurso precisa virar capacidade real de cuidado. E isso exige planejamento, execução e fiscalização”, afirma.
A fila é urgente. O problema é permanente
O prazo determinado pela Justiça cria uma resposta imediata para a urologia. Mas, para Fátima, reduzir a fila atual é apenas parte da tarefa. O desafio é evitar que a demanda volte a crescer depois que a lista for reduzida.
“Resolver a fila que existe é urgente. Mas, se depois de alguns meses outra fila aparece no mesmo lugar, nós apenas apagamos o incêndio. Saúde pública precisa construir capacidade permanente para responder às necessidades da população”, conclui.
A trajetória de Fátima – da Atenção Primária à gestão de um hospital universitário, passando pela formação e pela formulação de políticas públicas – é o ponto de partida de sua proposta de atuação federal.
A fila de urologia coloca um problema concreto sobre a mesa. A questão, para além dos 13.821 nomes, é transformar esse tipo de crise em política pública: com planejamento, financiamento, legislação e fiscalização capazes de fazer o recurso federal chegar à ponta e se transformar em cuidado.

