Bets: o custo que chega à saúde precisa entrar na conta do Congresso

As apostas online deixaram de ser apenas um fenômeno de entretenimento e passaram a produzir uma conta que também chega à saúde pública. Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em R$ 30,6 bilhões por ano os custos associados aos danos à saúde relacionados às apostas, incluindo R$ 17 bilhões relacionados a suicídios e R$ 13,4 bilhões associados à depressão. O levantamento estima ainda 12,8 milhões de apostadores em situação de risco, dos quais 1,4 milhão em situação de jogo problemático.

É diante desse cenário que a enfermeira sanitarista e ex-superintendente do Hospital Universitário de Brasília, Fátima Sousa, leva a discussão para o campo em que construiu sua trajetória: a Saúde Coletiva. A candidata a deputada federal pelo PDT-DF defende que o Congresso Nacional trate os impactos das apostas como uma questão de saúde pública, atuando sobre legislação, orçamento e fiscalização para que o Estado não espere o adoecimento para começar a cuidar.

O próprio IEPS ressalta que os valores representam custos associados aos casos analisados e que as evidências disponíveis não permitem estabelecer uma relação direta de causalidade entre jogo problemático e cada um desses desfechos. Ainda assim, a dimensão estimada dos impactos coloca uma questão que, para Fátima, não pode ficar fora da formulação das políticas públicas.

Quando a saúde entra na conta

A experiência de Fátima na Saúde Coletiva muda a pergunta. Em vez de esperar que o sofrimento chegue ao serviço de saúde, ela defende que a política pública seja capaz de reconhecer fatores de risco e agir antes do agravamento.

“Na Saúde Coletiva, nós não esperamos o agravo para organizar a resposta. Primeiro identificamos o risco, acompanhamos a população exposta e construímos a prevenção. Com as bets, precisamos fazer exatamente isso: produzir informação, reconhecer os danos e preparar o SUS para cuidar antes que o sofrimento se transforme em crise”, afirma.

O raciocínio é particularmente importante diante de um fenômeno que pode envolver saúde mental, comportamento compulsivo, endividamento e perda de renda. Para Fátima, não basta discutir se as plataformas podem funcionar ou quanto elas arrecadam. É preciso acompanhar os efeitos dessa atividade sobre a população e saber se a estrutura pública está preparada para responder.

O IEPS aponta uma diferença entre a dimensão econômica da regulação e a proteção da saúde: o modelo regulatório avançou na tributação das apostas, mas não criou mecanismos equivalentes de proteção sanitária.

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Arrecadação sem cuidado não fecha a conta

Os números financeiros também fazem parte desse debate. Segundo o IEPS, a arrecadação sobre o setor passou de R$ 38 milhões entre janeiro e setembro de 2024 para R$ 6,8 bilhões no mesmo período de 2025. Ao mesmo tempo, apenas 1% da arrecadação é destinado ao Ministério da Saúde; até 25 de agosto de 2025, o repasse informado somava pouco mais de R$ 32 milhões.

Para Fátima, esse dado não é apenas contábil. Ele diz respeito à capacidade do Estado de financiar a resposta a um problema que também produz consequências sanitárias. “Se uma atividade movimenta bilhões e os estudos apontam bilhões em custos associados à saúde, não faz sentido discutir a arrecadação sem discutir a responsabilidade pelo cuidado. O orçamento também é uma ferramenta de saúde pública. O Congresso precisa acompanhar quanto o Estado arrecada, quanto chega à Saúde e se esse recurso está produzindo prevenção, atendimento e cuidado para quem precisa”, assegura.

Prevenir antes que o dano apareça

Para Fátima, o enfrentamento das apostas não pode começar somente quando a pessoa já está em sofrimento grave. A lógica da prevenção, central na Saúde Coletiva, precisa estar presente desde a formulação das políticas.

“Quando sabemos que existe uma população exposta a um fator de risco, a política pública não pode esperar a doença aparecer para agir. Precisamos informar, monitorar, prevenir e criar caminhos de cuidado. Essa é uma lógica básica da Saúde Coletiva”, explica.

Isso também significa preparar o SUS para reconhecer e acolher pessoas afetadas pelo jogo problemático, integrando informação, prevenção, saúde mental e assistência. Para Fátima, saúde não pode ser tratada como uma consequência que aparece depois das decisões econômicas. Se uma atividade produz riscos à população, esses riscos precisam ser considerados na própria construção das regras.

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O papel do Congresso

É nesse ponto que a atuação federal ganha importância. Para Fátima, o Congresso não deve apenas acompanhar o crescimento do mercado de apostas, mas também fiscalizar os efeitos da política pública: quanto se arrecada, quanto chega à saúde, quais impactos estão sendo registrados e qual resposta o SUS consegue oferecer.

“Não basta perguntar quanto as bets movimentam. Precisamos perguntar quanto esse fenômeno está custando à sociedade, quais danos estão sendo produzidos e que resposta o Estado está oferecendo. Fiscalizar uma política de saúde também é acompanhar seus resultados”, afirma.

A questão das bets, para a sanitarista, retoma um princípio que atravessa sua trajetória de mais de três décadas na Saúde Pública: cuidar não é apenas atender quem adoeceu. É organizar a política pública para reduzir o risco de adoecimento.

E, diante de uma estimativa de R$ 30,6 bilhões anuais em custos associados à saúde, Fátima defende que a prevenção deixe de ser uma preocupação posterior e passe a fazer parte da própria regra do jogo.

Texto: Priscila Ferreira