Fila de 11 mil por psiquiatria expõe fragilidade da saúde mental no DF, alerta Fátima Sousa

A enfermeira sanitarista e professora da Universidade de Brasília (UnB) Fátima Sousa, candidata a deputada federal pelo PDT-DF, alerta que a fila de 11.441 solicitações de consulta em psiquiatria no Distrito Federal revela um problema maior do que a falta de vagas para especialistas. Os dados, referentes a julho de 2026 e fornecidos pela Secretaria de Saúde do DF ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), incluem solicitações registradas desde fevereiro de 2019. Do total, 486 estavam classificadas como risco vermelho e 6.115 como risco amarelo.

A situação levou o MPDFT a recomendar que a Secretaria de Saúde apresente, em até 60 dias, um plano para ampliar a oferta de consultas em psiquiatria geral e perinatal. A recomendação também prevê a revisão da fila pelas equipes da Atenção Primária e Secundária, para que cada pessoa seja direcionada ao tipo de cuidado mais adequado à sua necessidade.

Para Fátima, essa mudança de olhar é fundamental. A fila não começa no consultório do psiquiatra. “Quando milhares de pessoas chegam à fila de uma especialidade, precisamos olhar para tudo o que aconteceu antes. A Atenção Primária precisa ter capacidade de acolher, acompanhar e resolver aquilo que está ao seu alcance. E os serviços especializados precisam estar preparados para receber quem realmente necessita desse cuidado”, afirma.

O problema é maior que a fila

A recomendação do MPDFT estabelece que situações leves e moderadas não persistentes possam ser acompanhadas nas Unidades Básicas de Saúde e policlínicas. Já os casos moderados persistentes e graves devem ser direcionados aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). A proposta aponta para uma questão central: a saúde mental precisa funcionar como rede.

O Distrito Federal possui 18 CAPS em funcionamento, mas 14 são habilitados pelo Ministério da Saúde. Dados do Ministério da Saúde referentes a dezembro de 2024 indicavam cobertura de 0,54 CAPS habilitado por 100 mil habitantes no DF, abaixo da média nacional de 1,13.

Segundo informações publicadas pelo jornal Brasil de Fato, o último CAPS implantado no Distrito Federal foi o CAPS I de Brazlândia, em março de 2018. O Plano Distrital de Saúde 2024–2027 prevê cinco novas unidades.

Para Fátima, ampliar a estrutura é parte da resposta, mas não resolve o problema sozinho. “Precisamos de CAPS, precisamos de profissionais e precisamos fortalecer a Atenção Primária. Uma pessoa em sofrimento não pode ficar sem cuidado porque a única porta disponível para ela é uma consulta especializada”, afirma.

A discussão também envolve diferentes categorias profissionais. Dados divulgados pelo Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal apontam dificuldades na composição das equipes e longos tempos de espera para atendimento psicológico.

É por isso que, na avaliação da sanitarista, a resposta precisa considerar toda a rede de atenção psicossocial, e não apenas o número de psiquiatras disponíveis.

O que uma deputada federal pode fazer pelo DF

É nesse ponto que a discussão sobre a fila se conecta diretamente ao papel de Fátima Sousa como candidata à Câmara dos Deputados.

Uma deputada federal não administra CAPS, não marca consultas e não gerencia a rede de saúde do Distrito Federal. Essas são atribuições da gestão local. O mandato federal, porém, tem instrumentos próprios para atuar sobre a política de saúde: orçamento federal, legislação, fiscalização, acompanhamento de políticas públicas e articulação com órgãos e programas federais.

Na saúde mental, isso significa poder atuar na discussão do financiamento federal do SUS, acompanhar a execução das políticas nacionais de atenção psicossocial, fiscalizar a aplicação de recursos federais e defender medidas que fortaleçam a formação e a distribuição de profissionais e a estrutura da rede.

Para o Distrito Federal, a diferença está justamente em levar os problemas locais para onde são tomadas decisões que ultrapassam a gestão distrital.

“Uma deputada federal não vai administrar a saúde do DF. Mas pode defender recursos, discutir políticas nacionais, fiscalizar o que está sendo feito e colocar os problemas concretos da população do Distrito Federal dentro do debate federal. É essa conexão que muitas vezes falta”, afirma Fátima.

A experiência da candidata é parte importante dessa proposta. Fátima trabalhou na construção da Atenção Primária, atuou nacionalmente no Programa de Agentes Comunitários de Saúde e na implantação da estratégia que deu origem ao modelo de Saúde da Família, além de ter passado pela universidade e pela gestão do Hospital Universitário de Brasília (HUB).

Essa trajetória permite que sua leitura sobre a fila parta de diferentes pontos do SUS: a porta de entrada, a formação profissional, a gestão e a atenção hospitalar.

Cuidar antes de chegar à fila

Edward Munch – O Grito

Os dados atuais colocam uma resposta imediata como prioridade. O MPDFT quer um plano para ampliar a oferta e reorganizar o fluxo de atendimento. Mas, para Fátima, reduzir a fila atual precisa vir acompanhado de uma mudança capaz de impedir que ela volte a crescer.

“Precisamos cuidar de quem está esperando, mas também precisamos perguntar por que essa espera aconteceu. Se não enfrentarmos as causas, vamos apenas trocar uma fila por outra”, pondera.

A questão, portanto, não é escolher entre Atenção Primária, CAPS ou especialistas. É fazer com que esses pontos funcionem de forma articulada, com profissionais, estrutura, financiamento e capacidade de acompanhamento.

Para o Distrito Federal, essa é uma agenda que combina decisões locais e federais. E, na avaliação de Fátima Sousa, o Congresso Nacional também precisa olhar para ela. “Saúde mental não pode ser uma política que começa quando a pessoa chega à fila. O cuidado precisa começar antes.”

Texto: Priscila Ferreira