Brasília tem ciência. Falta o conhecimento chegar onde a cidade precisa
Fátima Sousa defende uma política de inovação capaz de aproximar universidades, governo e empresas e transformar pesquisa em soluções para a saúde, os serviços públicos e o desenvolvimento do Distrito Federal
Brasília tem universidades, pesquisadores, hospitais, empresas de tecnologia e uma estrutura pública capaz de formular e testar novas soluções. Para Fátima Sousa, candidata a deputada federal pelo PDT (DF), o desafio é fazer com que esse conhecimento deixe de circular em espaços isolados e passe a trabalhar de forma integrada para enfrentar problemas concretos do Distrito Federal.
A discussão ganha dimensão quando se olha para a procura por recursos para pesquisa. No Edital FAPDF 06/2026 – Demanda Espontânea, da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), foram habilitadas 329 propostas na primeira etapa de seleção. Juntas, elas representavam uma demanda financeira de R$ 92,4 milhões, enquanto o orçamento disponível para o edital era de R$ 9,8 milhões, uma demanda 9,43 vezes maior que os recursos disponíveis.
O resultado mostra uma forte procura por financiamento, mas não permite concluir que os R$ 92,4 milhões correspondam a projetos que necessariamente deveriam ser financiados. A habilitação é apenas uma etapa do processo, que ainda envolve análise de mérito, classificação e disponibilidade orçamentária.
Para Fátima, justamente por isso, a discussão sobre ciência e inovação precisa ir além do tamanho do orçamento. “Precisamos de financiamento adequado e previsível para ciência, tecnologia e inovação, mas também de avaliação e transparência. Precisamos saber o que estamos financiando, quais capacidades estamos construindo e quais resultados estamos produzindo. Ciência exige continuidade, mas o dinheiro público também exige responsabilidade”, afirma.
A avaliação da candidata é que Brasília não sofre de falta absoluta de capacidade. Ao contrário: o Distrito Federal concentra universidades e instituições de pesquisa, hospitais, empresas de tecnologia e serviços, órgãos públicos, instituições nacionais e organismos internacionais. Essa combinação cria condições particulares para desenvolver soluções em áreas como saúde, serviços públicos, transformação digital, inteligência artificial e sustentabilidade.
Brasília tem os ativos. Falta conectá-los
Universidades produzem conhecimento e formam profissionais. Pesquisadores desenvolvem novas soluções. Empresas podem transformar conhecimento em produtos e serviços. O governo pode financiar, regular, contratar e criar políticas públicas. E a sociedade é quem apresenta problemas que precisam ser enfrentados e quem deve se beneficiar dos resultados.
Quando essas partes não conversam, uma pesquisa pode permanecer restrita ao ambiente acadêmico, uma tecnologia pode não encontrar caminho para ser aplicada e uma solução que funcionou em pequena escala pode nunca chegar a quem precisa dela.
“Brasília não precisa copiar outro ecossistema de inovação. Precisa reconhecer e desenvolver suas próprias vantagens”, diz Fátima.


Da universidade para a vida real
A defesa de uma ciência mais conectada aos problemas do território não significa, para a candidata, abandonar a pesquisa básica. Fátima considera que a produção de conhecimento e a formação científica têm valor próprio, mas entende que é preciso ampliar os caminhos entre a universidade, o setor produtivo, o poder público e a população.
Essa aproximação pode ocorrer por meio de pesquisas cooperativas, transferência de tecnologia, laboratórios compartilhados, ambientes de inovação e projetos voltados a desafios concretos. O próprio marco legal brasileiro de ciência, tecnologia e inovação oferece instrumentos para estimular essa cooperação.
Na saúde, área que está no centro da trajetória profissional de Fátima, a conexão é especialmente evidente. Pesquisa científica pode contribuir para melhorar diagnóstico, prevenção, vigilância, gestão hospitalar, atendimento remoto e desenvolvimento de novas tecnologias. Mas, para ela, inovação só faz sentido quando produz benefício concreto. “Ciência não é concorrente das políticas públicas; pode ser um instrumento para fazê-las funcionar melhor”, afirma.
A mesma lógica vale para outras áreas. Uma tecnologia desenvolvida em Brasília pode melhorar um serviço público. Uma pesquisa pode gerar uma nova solução para mobilidade ou sustentabilidade. Uma ferramenta de inteligência artificial pode aumentar a eficiência do Estado, desde que seja usada com responsabilidade. Uma iniciativa criada em uma universidade pode se transformar em empreendimento, gerar empregos qualificados e chegar ao mercado.
O ponto central é evitar que essas iniciativas parem no meio do caminho.
Mais que financiar: acompanhar o que acontece depois
Para Fátima, uma política pública de ciência e inovação precisa olhar para todo o percurso: formar pessoas, garantir financiamento, aproximar os diferentes atores e criar condições para que aquilo que funciona possa ser aplicado em maior escala. Isso exige também acompanhar resultados.
A Lei Orgânica do Distrito Federal prevê, a partir de 2026, uma dotação mínima de 0,08% da Receita Corrente Líquida para projetos, pesquisas e inovação. A existência dessa previsão, segundo a análise apresentada pela candidata, abre uma discussão que vai além do valor nominal: é preciso saber quanto é efetivamente disponibilizado, como os recursos são executados, que resultados produzem e se há previsibilidade para quem pesquisa e desenvolve soluções.
É essa combinação entre recursos, planejamento, articulação, transparência e avaliação que Fátima quer levar para o debate sobre ciência e tecnologia.

O que Brasília pode ganhar com uma voz no Congresso
Como deputada federal, a atuação de Fátima não seria administrar a FAPDF ou determinar as políticas do Governo do Distrito Federal. O papel do mandato federal é outro: atuar sobre o orçamento da União, defender recursos para universidades e instituições científicas, acompanhar políticas federais, participar da elaboração de leis e fiscalizar a aplicação de recursos e os resultados alcançados.
Também existe espaço para aproximar o Distrito Federal de programas e instituições federais de ciência e inovação, como o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).
É uma agenda que se conecta diretamente à trajetória de Fátima. Enfermeira sanitarista, professora da Universidade de Brasília e ex-superintendente do Hospital Universitário de Brasília, ela construiu sua vida profissional na relação entre conhecimento, formação e serviço público.
“Não quero falar de tecnologia pela tecnologia. Quero discutir como o conhecimento científico, a inovação e a capacidade existente em Brasília podem gerar desenvolvimento, oportunidades e melhores soluções para a população”, afirma.
Para a candidata, Brasília tem uma vantagem que precisa ser melhor aproveitada: a cidade concentra conhecimento, instituições e capacidade de formular políticas públicas. O próximo passo é fazer essas forças trabalharem juntas, com financiamento responsável, transparência e foco no resultado que chega à sociedade.
Texto: Priscila Ferreira
Foto da capa: Walter Campanato

