Fátima Sousa propõe política nacional para formar, valorizar e fixar profissionais no SUS

A crise de profissionais na saúde pública costuma aparecer quando falta médico em uma unidade, quando uma equipe fica desfalcada ou quando uma pessoa precisa esperar meses por um especialista. Mas, para Fátima Sousa, candidata a deputada federal pelo PDT-DF, o problema começa muito antes, e sua experiência na Universidade de Brasília ajuda a explicar por quê.

Professora da UnB e enfermeira sanitarista com mais de três décadas dedicadas à Saúde Coletiva, Fátima participou da construção do campus da Universidade de Brasília em Ceilândia, concebido para aproximar a formação em saúde das necessidades concretas do território. Para ela, aquela experiência traduz uma ideia que hoje pretende levar ao debate federal: não existe política de saúde sustentável sem pensar, ao mesmo tempo, em quem será formado, onde esse profissional vai trabalhar e em que condições conseguirá permanecer no SUS.

A universidade também pode ser uma política de saúde

Quando Fátima fala sobre formação profissional, não fala apenas como professora. Fala também a partir de uma experiência que ajudou a construir.

A implantação do Campus UnB Ceilândia representou uma mudança importante na relação entre universidade, formação profissional e território. A proposta era levar a universidade para mais perto de uma região que crescia e precisava ampliar sua capacidade de formar profissionais de saúde.

Foi nesse processo que Fátima participou da construção do projeto acadêmico do campus e da criação do curso de Saúde Coletiva. Essa experiência é especialmente significativa porque antecipa uma questão que permanece atual: onde formar profissionais também é uma decisão sobre onde o cuidado vai existir.

Uma universidade instalada no território não produz apenas diplomas. Forma profissionais que conhecem uma realidade social específica, produz conhecimento sobre aquela população e estabelece uma relação permanente entre ensino, serviço e comunidade.

“Quando ajudamos a construir a UnB em Ceilândia, não estávamos simplesmente criando uma nova estrutura universitária. Estávamos aproximando formação, território e saúde. É isso que precisamos continuar fazendo em escala nacional: formar profissionais olhando para as necessidades reais do país.”

A experiência de Ceilândia ajuda a colocar a discussão em outro lugar. A falta de profissionais não começa necessariamente no momento em que uma unidade abre uma vaga. Ela pode ser resultado de escolhas feitas anos antes sobre formação, distribuição de cursos, condições de trabalho e perspectivas de carreira. E é justamente aí que Fátima quer ampliar o debate.

Foto: Agência Brasil

Formar é importante. Fazer o profissional permanecer também.

O Brasil pode ampliar vagas de formação, criar novos cursos e realizar concursos. Ainda assim, continuará enfrentando dificuldades se não conseguir criar condições para que os profissionais permaneçam na rede pública. Essa é uma das preocupações centrais de Fátima.

A escassez de médicos e especialistas no SUS, na sua avaliação, não pode ser enfrentada apenas com respostas emergenciais. É preciso construir uma política capaz de combinar formação, carreira, condições de trabalho, educação permanente e valorização profissional.

É nesse contexto que ela propõe a criação de uma Política Nacional de Fixação de Profissionais no SUS, com participação e suporte federal para planos de carreira, melhores condições de trabalho e medidas de enfrentamento ao esgotamento das equipes.

“Não adianta formar profissionais para o SUS se não criarmos condições para que eles permaneçam. Valorizar quem trabalha na saúde não é um benefício corporativo. É uma política de cuidado com a população. Quando uma equipe perde profissionais continuamente, quem sente primeiro é quem precisa do serviço.”

A proposta parte de uma constatação simples: não existe continuidade do cuidado sem continuidade das equipes. A relação entre profissional e usuário do SUS não se constrói em atendimentos isolados. Ela depende de vínculo, conhecimento do território, trabalho em equipe e experiência acumulada. Quando os profissionais entram e saem continuamente, parte dessa capacidade também se perde.

O profissional também precisa ser cuidado

A valorização defendida por Fátima não se resume a salário. Inclui carreira, condições adequadas para trabalhar, formação permanente, reconhecimento profissional e medidas para enfrentar o esgotamento que atinge trabalhadores submetidos a jornadas intensas e ambientes de alta pressão.

É uma mudança de perspectiva: cuidar de quem cuida também é política de saúde. Para uma sanitarista cuja trajetória foi construída dentro da formação profissional, da gestão e da organização do SUS, essa não é uma discussão lateral: é parte da própria capacidade do sistema de funcionar.

“Um sistema de saúde não é feito apenas de prédios, equipamentos e protocolos. Ele é feito de gente. Se quisermos um SUS forte, precisamos cuidar também de quem está todos os dias garantindo que ele aconteça.” Essa visão aproxima duas experiências que marcaram a trajetória de Fátima: a universidade e a saúde pública.

Na UnB, ela participou da formação de profissionais e da construção de uma universidade conectada ao território. No SUS, atuou em diferentes momentos da organização da Atenção Primária e da formação de políticas públicas.

Agora, a questão que ela coloca no debate federal é como transformar essas experiências em políticas nacionais capazes de enfrentar um problema que não se resolve de um mandato para outro.

Foto: Radilson Gomes

O futuro do SUS começa muito antes do hospital

O debate sobre profissionais da saúde costuma ganhar visibilidade quando uma emergência está lotada ou quando uma especialidade está em falta. Fátima propõe olhar para o outro lado da equação: o que o país precisa fazer hoje para não enfrentar amanhã a mesma escassez?

Isso significa aproximar universidades e serviços, orientar a formação pelas necessidades dos territórios, criar condições para a permanência dos profissionais e estabelecer políticas nacionais de valorização de quem trabalha no SUS.

É também uma agenda que ultrapassa os limites de uma secretaria de saúde. Formação profissional, financiamento, legislação, carreira e políticas nacionais envolvem decisões que passam pelo Congresso Nacional e pelo governo federal.

“O Congresso precisa discutir o SUS pensando no profissional que estará na ponta daqui a dez, quinze, vinte anos. A decisão que tomamos hoje sobre formação, carreira e condições de trabalho vai determinar a capacidade do sistema de cuidar das pessoas no futuro”, conclui.

Texto: Priscila Ferreira