Fátima Sousa apresenta propostas para enfrentar filas, falta de profissionais e gargalos da saúde no DF
Criadora do Programa de Agentes Comunitários de Saúde defende reforço da Atenção Primária, profissionais, fiscalização de recursos e integração entre DF e Entorno para ampliar a capacidade de atendimento
A enfermeira, sanitarista e professora da Universidade de Brasília (UnB) Fátima Sousa apresenta uma agenda para enfrentar alguns dos principais gargalos da saúde pública do Distrito Federal: filas de atendimento, dificuldade para recompor equipes, insuficiência de recursos e desarticulação entre os serviços. A proposta parte de uma experiência de mais de três décadas no SUS, que inclui a construção do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e da Estratégia Saúde da Família, atuação no Núcleo de Estudos em Saúde Pública (NESP) da UnB e gestão do Hospital Universitário de Brasília (HUB).
O debate ocorre em um momento de forte pressão sobre a rede. O Ministério Público de Contas do DF apontou déficit global de 26,49% entre o orçamento disponível e a necessidade apurada pela Secretaria de Saúde para despesas essenciais de 2026. Na mesma análise, a rubrica de medicamentos apresentou déficit de 77,05%. Na atenção especializada, 13.821 pessoas aguardam consulta em urologia, segundo dados da Secretaria de Saúde citados pelo MPDFT, que obteve decisão para que o Distrito Federal apresente, em 60 dias, um plano para qualificar a demanda e informar a capacidade de atendimento da rede.
Na Atenção Primária, a Secretaria de Saúde abriu processo seletivo com 114 vagas para médicos de Família e Comunidade, evidenciando a necessidade de recomposição das equipes.
Para Fátima, os números apontam para um problema que não se resolve apenas pela ampliação física da rede. É preciso aumentar a capacidade de funcionamento do SUS.
“A saúde precisa ser pensada pelo que consegue entregar. Uma obra pode ampliar a estrutura, mas quem atende é o profissional, quem organiza o acesso é a rede e quem garante que o recurso produza resultado é a gestão. Se essas partes não funcionam juntas, a população continua esperando”, afirma.
Recursos federais acompanhados por resultados

Uma das propostas apresentadas por Fátima é a criação do Indicador de Transparência da Regulação, mecanismo que estabeleceria metas periódicas para acompanhamento das filas e vincularia a avaliação da aplicação de recursos federais aos resultados alcançados na organização do acesso.
A ideia parte de uma preocupação com a distância entre o recurso destinado à saúde e o atendimento efetivamente recebido pela população.
“Não basta saber quanto dinheiro foi transferido. É preciso saber o que aquele recurso produziu. Se existe uma fila, precisamos acompanhar se ela está diminuindo, onde está o gargalo e que medida foi tomada. Recurso público precisa ser acompanhado até virar atendimento”, avalia.
A proposta coloca a regulação como instrumento de gestão, e não apenas como mecanismo administrativo para ordenar encaminhamentos.
Obras paradas também precisam entrar na conta

Fátima também propõe a criação da Lei da Fila Zero de Obras da Saúde, com mecanismos permanentes de acompanhamento de obras públicas de saúde e identificação de projetos paralisados.
A proposta busca ampliar o controle sobre investimentos já iniciados, incluindo a avaliação das condições necessárias para que uma unidade possa efetivamente entrar em funcionamento.
“Não podemos medir investimento apenas pelo número de obras anunciadas ou iniciadas. É preciso saber quais estão funcionando, quais estão paradas, quanto já foi gasto e o que falta para entregar o serviço à população. Uma obra de saúde só cumpre sua finalidade quando consegue produzir cuidado”, assegura.
A lógica acompanha uma questão mais ampla da gestão pública: planejar não apenas a construção, mas também pessoal, custeio, equipamentos e manutenção necessários para sustentar o serviço depois da entrega.
Profissionais como parte da infraestrutura do SUS

A dificuldade de preencher e manter equipes também está no centro das propostas. Fátima defende uma Política Nacional de Fixação de Profissionais no SUS, com participação federal no apoio a planos de carreira regionais e na melhoria das condições de trabalho.
Para a sanitarista, a falta de profissionais não pode ser tratada como uma etapa posterior à definição da estrutura. “Profissional não é complemento da infraestrutura. É parte dela. Não adianta abrir uma unidade se não conseguimos formar, atrair e manter quem vai trabalhar ali. A política de pessoal precisa estar no planejamento desde o início.”
A proposta se relaciona diretamente à Atenção Primária, que depende de equipes estáveis para acompanhar a população, identificar necessidades e organizar o acesso aos demais níveis de atenção.
Usar melhor a capacidade que já existe

Outra frente da agenda de Fátima é aproveitar a capacidade instalada de hospitais públicos e universitários. Ela propõe regulamentar o uso de horários e estruturas disponíveis e criar o Mutirão do Diagnóstico Prévio, com participação de universidades e centros técnicos na ampliação da oferta de exames especializados.
A proposta procura enfrentar uma das etapas que podem prolongar a espera: o tempo entre a identificação da necessidade de investigação e a realização do exame. “Antes de construir mais capacidade, precisamos conhecer e utilizar melhor a capacidade que já temos. Hospitais universitários, universidades e centros técnicos também podem participar dessa resposta. É uma forma de transformar estrutura, conhecimento e profissionais em atendimento”, afirma.
Saúde não termina na divisa do DF

A quinta frente envolve a Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (RIDE). Fátima propõe um modelo de cooperação interfederativa para ampliar a oferta de serviços nos municípios do Entorno e reduzir a concentração da demanda nos hospitais do Distrito Federal.
A proposta prevê articulação entre União, DF e municípios para discutir financiamento e organização compartilhada da assistência. “O paciente não deixa de precisar de atendimento porque atravessou a divisa do Distrito Federal. Se a população do Entorno utiliza a rede do DF, precisamos enfrentar essa realidade de forma regional. O planejamento tem que acompanhar o território real das pessoas, e não apenas os limites administrativos.”
Da experiência no SUS para a atuação federal

As cinco propostas têm em comum uma mesma concepção: a saúde precisa ser tratada como uma rede que combina financiamento, profissionais, estrutura, regulação e gestão.
É essa experiência que Fátima pretende levar para a discussão federal. O Congresso participa da definição do orçamento da União, da legislação e das políticas nacionais do SUS, além de exercer fiscalização sobre a aplicação dos recursos públicos.
“Minha trajetória no SUS me ensinou que nenhum problema de saúde pública se resolve olhando apenas para uma parte da rede. No Congresso, quero levar essa visão para as decisões sobre orçamento, financiamento, profissionais e políticas nacionais. O que está em Brasília precisa fazer sentido para quem está esperando atendimento na ponta”, conclui.
Texto: Priscila Ferreira

