66 propostas e um alerta: por que a crise da saúde no DF exige mais do que promessas de campanha
Carta da Frente em Defesa da Saúde no DF reúne 66 propostas para enfrentar gargalos da rede; para Fátima Sousa, diagnóstico reforça a necessidade de planejamento, financiamento e fiscalização do SUS
A saúde pública do Distrito Federal ganhou, nesta semana, um diagnóstico acompanhado de propostas concretas. Em 30 de setembro, a Frente em Defesa da Saúde no DF apresentou às candidaturas ao Governo do Distrito Federal uma carta-compromisso com 66 propostas para enfrentar os principais gargalos da rede. A iniciativa reúne 11 entidades representativas de diferentes áreas da saúde, incluindo médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, farmacêuticos e dentistas. O documento aborda atenção primária, hospitais, saúde mental, saúde bucal, infraestrutura, financiamento e valorização dos profissionais.
Para a enfermeira sanitarista, ex-gestora do Hospital Universitário de Brasília (HUB) e candidata a deputada federal pelo PDT-DF, Fátima Sousa, a carta organiza em propostas um diagnóstico que sua trajetória de mais de 30 anos no SUS permite reconhecer de diferentes pontos da rede.
“A saúde do DF não pode ser discutida apenas pelo tamanho das filas. Quando entidades que representam profissionais e diferentes áreas da saúde apresentam 66 propostas, elas estão mostrando que o problema é maior: precisamos olhar para a rede inteira, para o financiamento, para a atenção primária, para os hospitais, para os profissionais e para a capacidade de gestão”, avalia Fátima.
A fila é apenas a ponta do problema
O documento das entidades mostra que os gargalos da saúde estão interligados. A carta propõe medidas para fortalecer a atenção primária, melhorar a rede assistencial, enfrentar problemas de saúde mental e bucal, valorizar os profissionais e aperfeiçoar o planejamento e o financiamento.
Com sua experiência na construção de políticas nacionais do SUS, Fátima destaca que a cobrança por resultados mensuráveis é fundamental. “Não basta dizer o que precisa ser feito. É preciso saber quanto custa, quem é responsável, em quanto tempo será realizado e como vamos medir o resultado. Saúde pública precisa de planejamento, mas também precisa de acompanhamento”, afirma.
A experiência acumulada na Atenção Primária, na Universidade de Brasília e na gestão hospitalar também orienta a forma como Fátima enxerga as filas. Para ela, o problema não começa quando o nome chega à lista de espera.
“Quando milhares de pessoas chegam ao mesmo gargalo, a pergunta não pode ser apenas como tirar essas pessoas da fila. Precisamos saber por que chegaram ali, onde a rede perdeu capacidade e o que precisa mudar para que a fila não volte a se formar.”

O peso do Congresso na saúde do DF
Embora a carta tenha como destinatárias as candidaturas ao Governo do Distrito Federal, os problemas apontados pelas entidades também alcançam a esfera federal. O SUS é uma construção federativa. A gestão distrital tem responsabilidades diretas sobre a rede do DF, mas o financiamento federal, as políticas nacionais, o Orçamento da União e a fiscalização também interferem na capacidade de funcionamento do sistema.
É nesse espaço que Fátima situa sua candidatura à Câmara dos Deputados. Como deputada federal, sua atuação não seria administrar diretamente uma UBS ou um hospital do DF, mas participar das decisões sobre orçamento, legislação e políticas nacionais, além de fiscalizar a aplicação dos recursos federais.
“O SUS é uma construção federativa. O DF tem responsabilidades próprias, mas existe também uma responsabilidade federal no financiamento, nas políticas nacionais, no orçamento e na fiscalização. O Congresso precisa acompanhar se o recurso está chegando e, principalmente, se está produzindo capacidade de cuidado”, afirma.
Para Fátima, a discussão sobre orçamento precisa chegar ao resultado concreto. “Cada real investido no SUS precisa ter um caminho que possa ser acompanhado. O cidadão não quer saber apenas quanto foi destinado. Ele quer saber se o recurso virou equipe, medicamento, exame, cirurgia, atendimento. É aí que o orçamento encontra a vida real”, assegura.


Criar soluções permanentes, não paliativos
A convergência entre o diagnóstico apresentado pelas entidades e a trajetória de Fátima está em uma premissa: a saúde pública não pode funcionar apenas apagando incêndios.
Fortalecer a atenção primária, garantir profissionais, organizar a rede especializada e acompanhar a aplicação dos recursos são medidas que ajudam a construir capacidade permanente de cuidado.
“A saúde precisa parar de trabalhar apenas apagando incêndios. Se a gente resolve uma fila e, alguns meses depois, outra aparece no mesmo lugar, não construímos solução. Precisamos criar capacidade permanente para que a rede consiga responder às necessidades da população”, conclui.
Fotos: Radilson Gomes
Texto: Priscila Ferreira

