7 de Setembro coloca violência contra as mulheres no centro do debate; Fátima Sousa defende resposta pela saúde pública
Com o enfrentamento à violência entre os três eixos oficiais do desfile em Brasília, candidata defende que o SUS tenha papel mais forte na prevenção, no acolhimento e na identificação de situações de risco
Neste 7 de Setembro, o enfrentamento à violência contra as mulheres ganhou lugar entre os três eixos oficiais do desfile da Independência na Esplanada dos Ministérios, ao lado da soberania nacional e da Copa do Mundo Feminina de 2027. Para Fátima Sousa, a escolha coloca em evidência uma questão que precisa ser enfrentada para além da segurança e da Justiça: a violência contra a mulher também chega ao SUS e exige uma resposta da saúde pública.
Enfermeira sanitarista e professora da Universidade de Brasília, Fátima defende que a rede de saúde esteja preparada para reconhecer sinais, acolher mulheres em situação de risco, registrar os casos e fazer a conexão com os demais serviços de proteção. Muitas vezes, a unidade de saúde é uma das primeiras portas às quais uma mulher recorre, e pode ser também o lugar onde uma situação é identificada antes que se agrave.
“Uma mulher não deveria precisar chegar ao limite para ser vista pelo Estado. Precisamos fortalecer as redes para que elas consigam chegar antes, acolher antes e proteger antes”, afirma Fátima.
A preocupação com essa atuação articulada ganhou dimensão nacional em fevereiro, quando os Três Poderes lançaram o Pacto Brasil entre os Três Poderes para o Enfrentamento do Feminicídio. A iniciativa estabeleceu uma atuação coordenada entre as instituições, com foco na prevenção, proteção e responsabilização. Entre as prioridades definidas posteriormente está o fortalecimento da rede de acolhimento e atendimento às mulheres.
O SUS também precisa reconhecer os sinais
Uma situação de violência nem sempre chega ao serviço de saúde com esse nome. Uma mulher pode procurar atendimento por uma lesão, uma crise de ansiedade, sofrimento psíquico, dores recorrentes ou outros problemas. Pode ainda estar acompanhada de alguém que exerce controle sobre sua rotina.
É nesse contato cotidiano que, para Fátima, a rede pública precisa estar preparada para perceber o que muitas vezes não é dito. A Atenção Primária tem papel especialmente importante porque mantém uma relação contínua com as pessoas e os territórios. Profissionais que acompanham uma família ao longo do tempo podem reconhecer mudanças de comportamento, sinais de sofrimento e situações que exigem atenção.
Para isso, não basta ter um protocolo. É preciso qualificar profissionais, garantir acolhimento adequado, preservar a segurança e estabelecer fluxos que permitam encaminhar cada situação dentro da rede de proteção.
A notificação dos casos também é parte dessa resposta. Os registros produzidos pelos serviços de saúde ajudam o poder público a conhecer a dimensão do problema, identificar padrões e orientar políticas de prevenção e atendimento.
“A saúde não pode ser apenas o lugar para onde a mulher vai depois que alguma coisa aconteceu. Ela também precisa ser um espaço de escuta e de identificação. Se conseguimos perceber uma situação antes que ela se agrave, a atuação do Estado muda completamente”, explica Fátima.

A violência não termina quando a agressão acaba
As consequências de uma situação de violência não desaparecem quando uma lesão deixa de ser visível.
Ameaças, medo, controle e agressões psicológicas podem produzir sofrimento que permanece por muito tempo. Ansiedade, depressão, distúrbios do sono e outros problemas podem chegar aos serviços de saúde sem que sua relação com a violência seja imediatamente reconhecida.
Por isso, Fátima defende que a saúde mental esteja integrada à resposta. A mulher precisa encontrar não apenas atendimento para uma consequência imediata, mas condições para continuar sendo acompanhada.
“Quando uma mulher sofre violência, não existe apenas uma dimensão daquele problema. Existe o corpo, existe a saúde mental, existe a família, existe o trabalho, existe a vida daquela pessoa. A resposta também precisa olhar para tudo isso”, afirma.
A saúde, nesse modelo, não substitui as políticas de segurança, assistência ou Justiça. Ela precisa estar conectada a elas. Uma mulher que procura uma unidade de saúde deve encontrar uma porta que funcione e uma rede capaz de dar continuidade ao cuidado.
O que pode ser feito no âmbito federal

O enfrentamento da violência contra as mulheres envolve diferentes níveis de governo e áreas do Estado. No Congresso Nacional, a atuação passa pela legislação, pela definição de prioridades orçamentárias e pela fiscalização das políticas públicas federais.
O pacto lançado em fevereiro representa justamente uma tentativa de integrar essas diferentes responsabilidades. Seu comitê de gestão tem entre suas atribuições definir prioridades, articular instituições e acompanhar compromissos relacionados ao enfrentamento do feminicídio.
Para Fátima, a perspectiva da saúde precisa estar presente nessa agenda federal. Isso significa discutir a capacidade da Atenção Primária para identificar situações de risco, a estrutura da rede de atendimento, a formação dos profissionais, a atenção à saúde mental e a produção de informações que permitam ao poder público enxergar onde o problema está e como ele se manifesta.
Sua trajetória profissional está diretamente ligada a essa visão. Fátima atuou na Atenção Primária, no Ministério da Saúde, na Universidade de Brasília e na gestão do Hospital Universitário de Brasília. Entre 1994 e 2002, foi gerente nacional do Programa de Agentes Comunitários de Saúde, experiência que marcou sua atuação na defesa de uma saúde pública próxima dos territórios.
É a partir dessa experiência que ela sustenta que a prevenção não pode ser confundida com uma ação isolada. É preciso construir uma rede capaz de reconhecer, acolher, acompanhar e proteger.
“Quando falamos em combater o feminicídio, precisamos falar também de tudo o que pode ser feito antes dele. A saúde tem instrumentos para identificar, acolher, acompanhar e produzir informação. Precisamos usar esses instrumentos para proteger vidas”, afirma.
Neste 7 de Setembro, o tema ganha visibilidade nacional. Mas a discussão ultrapassa a programação da data. Ela chega à vida cotidiana de mulheres que precisam trabalhar, estudar, circular pela cidade, criar os filhos e voltar para casa sem que o medo determine suas escolhas.
Texto: Priscila Ferreira

