Se o Cerrado adoece, Brasília sente: Fátima Sousa chama atenção para a relação entre ambiente e saúde
No Dia Nacional do Cerrado, enfermeira sanitarista defende que água, clima, qualidade do ar e proteção do território também façam parte da agenda de saúde pública
Brasília está dentro do Cerrado. E isso significa que falar sobre a preservação do bioma também é falar sobre a água que chega às casas, o ar que a população respira, o calor enfrentado durante a seca e as condições de vida nos diferentes territórios do Distrito Federal. E tudo isso também tem a ver com saúde.
É esse olhar que Fátima Sousa, enfermeira sanitarista e professora da Universidade de Brasília (UnB), propõe neste 11 de setembro, Dia Nacional do Cerrado. Para a candidata a deputada federal pelo PDT-DF, a proteção do bioma não pode ser tratada como uma pauta separada da saúde pública.
“A saúde não começa quando a pessoa entra em uma unidade do SUS. Ela começa muito antes: na água que bebe, no ar que respira, na alimentação, na moradia e no território onde vive”, afirma Fátima.
O Distrito Federal está totalmente inserido no Cerrado, bioma conhecido pela importância de suas nascentes e áreas de recarga hídrica. A conservação dessas áreas contribui para a manutenção dos recursos hídricos e, consequentemente, para a segurança da água no território. Para Fátima, essa relação ajuda a entender por que uma política ambiental também pode ser uma política de prevenção em saúde.
O problema começa antes de chegar ao SUS
Meses de seca, baixa umidade, altas temperaturas e fumaça de queimadas fazem parte da realidade do Distrito Federal. Os impactos, porém, não são iguais para todos. Crianças, idosos, pessoas com problemas respiratórios e trabalhadores que passam muitas horas expostos ao sol, por exemplo, podem estar mais vulneráveis aos efeitos do calor, da baixa umidade e da poluição.
“Se sabemos que determinados períodos e territórios aumentam a exposição das pessoas a riscos, precisamos nos antecipar. A saúde precisa estar preparada, mas as outras políticas também precisam agir antes que a população adoeça”, assegura Fátima.
A qualidade do ar e da água já é acompanhada por estruturas de vigilância em saúde justamente porque fatores ambientais podem interferir diretamente nas condições de vida da população. Para a enfermeira sanitarista, o próximo passo é fazer com que esse conhecimento esteja cada vez mais presente nas decisões públicas. A lógica é a mesma que orienta a prevenção no SUS: agir antes que o problema se agrave.

Quem está mais exposto?
A discussão também passa pelas diferenças entre os territórios. Uma região com arborização, áreas verdes e infraestrutura adequada não oferece as mesmas condições de proteção que uma área com pouca cobertura vegetal, maior impermeabilização do solo ou acesso mais precário a serviços básicos.
Por isso, Fátima defende que as políticas de adaptação climática considerem não apenas o fenômeno ambiental, mas também quem está mais exposto aos seus efeitos. “Não podemos falar de clima sem falar de desigualdade. Quem tem mais recursos consegue se proteger melhor. A política pública precisa chegar primeiro onde a vulnerabilidade é maior”, afirma.
Preservar também é prevenir
Na visão de Fátima, proteger o Cerrado significa agir sobre fatores que interferem diretamente na saúde. Preservar nascentes ajuda a proteger a segurança hídrica. Ampliar áreas verdes pode contribuir para reduzir o calor nas cidades. Monitorar a qualidade do ar permite identificar situações de maior exposição. Preparar os territórios para eventos climáticos extremos reduz riscos para a população.
São ações de áreas diferentes, mas que precisam conversar. “Não faz sentido pensar no SUS apenas como o lugar que recebe as pessoas depois que o problema aconteceu. Precisamos fortalecer a capacidade de antecipar os riscos e agir sobre as causas”, afirma.
Essa integração também envolve ciência e tecnologia, planejamento urbano, recursos hídricos e financiamento público. Para Fátima, o debate sobre o Cerrado precisa chegar às decisões nacionais justamente porque saúde e meio ambiente não respeitam os limites entre áreas administrativas.


O Cerrado não é cenário. É parte da nossa vida.
No Dia Nacional do Cerrado, a proposta de Fátima é olhar para o bioma a partir de uma pergunta simples: que tipo de território estamos construindo para as pessoas que vivem aqui? O Distrito Federal não está apenas cercado pelo Cerrado. O Distrito Federal vive dentro dele.
A água, o clima, o ar, o solo e a vegetação fazem parte da vida cotidiana, mesmo quando essa relação não é percebida. Por isso, para Fátima Sousa, preservar o Cerrado não é apenas proteger um patrimônio ambiental. É também cuidar das condições que permitem que a população viva com saúde.
“Cuidar do Cerrado é cuidar das condições que sustentam a vida. E cuidar dessas condições é cuidar da saúde. A melhor política é aquela que consegue chegar antes do problema”, conclui.

Texto: Priscila Ferreira

