Se as mulheres são maioria no DF, por que ainda são minoria nos espaços de poder?
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Candidata a deputada federal pelo PDT-DF, Fátima Sousa defende mais mulheres nos espaços de decisão e quer transformar sua própria candidatura em parte dessa mudança
O Distrito Federal terá menos mulheres disputando as eleições de 2026. São 231 candidaturas femininas, 26,9% a menos que em 2022, quando foram registradas 316, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na corrida por uma vaga na Câmara dos Deputados, são apenas 64 candidatas.
Para Fátima Sousa, candidata a deputada federal pelo PDT-DF, número 1230, o dado revela um problema que vai além da quantidade de nomes nas urnas: mulheres ainda encontram obstáculos para chegar aos espaços onde são tomadas decisões sobre orçamento, saúde, educação, trabalho e direitos.
“Não podemos achar normal que as mulheres sejam maioria na sociedade e continuem sendo minoria onde as decisões são tomadas. A democracia fica menor quando uma parte tão grande da população não consegue ocupar esses espaços em condições de igualdade”, afirma.

A cota não resolve sozinha
A legislação eleitoral estabelece que partidos e federações devem preencher pelo menos 30% das candidaturas com pessoas de cada sexo. A regra foi criada para enfrentar a desigualdade histórica na participação política, mas, para Fátima, garantir o registro de uma candidatura é diferente de garantir condições para que uma mulher possa disputar de fato.
“Precisamos olhar para o que acontece depois da inscrição. Uma mulher precisa ter acesso a recursos, estrutura, espaço para apresentar suas propostas e condições para fazer uma campanha competitiva. A cota é importante, mas não pode ser o ponto de chegada”, assegura.
O problema também não termina no momento da eleição. Para Fátima, ampliar a presença feminina significa garantir que mulheres com diferentes histórias e experiências possam participar da elaboração das políticas públicas.
“Quando uma mulher está naquele espaço, ela leva perguntas que talvez não fossem feitas, problemas que talvez não fossem vistos e experiências que precisam estar presentes. Não se trata de dizer que toda mulher pensa da mesma maneira. Trata-se de reconhecer que a sociedade é diversa e a política também precisa ser.”
Fátima conhece o caminho de abrir portas
A própria trajetória da candidata ajuda a explicar por que a participação feminina na política é uma das pautas que pretende levar à Câmara.
Paraibana, filha de uma empregada doméstica e de um operário da construção civil, Fátima aprendeu a ler aos 12 anos. A educação pública foi decisiva para sua trajetória. Enfermeira sanitarista e professora da Universidade de Brasília (UnB), foi diretora da Faculdade de Ciências da Saúde e superintendente do Hospital Universitário de Brasília (HUB).
É dessa experiência que ela parte para defender uma política capaz de criar oportunidades para quem historicamente encontrou mais barreiras para chegar aos espaços de poder. “Eu sei o que significa uma porta não estar aberta. A educação mudou a minha vida. Por isso, quando falo em abrir caminhos para outras mulheres, estou falando de algo que conheço profundamente.”

Da presença à transformação
Para Fátima, a questão não é simplesmente eleger mais mulheres. É garantir que elas possam participar da política com autonomia e transformar sua presença em ação concreta.
Isso significa, segundo ela, levar para o Congresso temas que fazem parte da vida cotidiana de milhões de mulheres, mas que ainda são tratados como questões secundárias: o acesso à saúde, a sobrecarga do trabalho de cuidado, a educação, a autonomia econômica, a violência e as desigualdades entre os territórios.
“Eu não quero chegar ao Congresso apenas para ocupar uma cadeira. Quero trabalhar para que outras mulheres também possam chegar. Quero que uma menina do DF olhe para a Câmara dos Deputados e veja aquele espaço como uma possibilidade para ela, independentemente da sua origem ou da sua condição social”, afirma.
O cenário eleitoral de 2026, para Fátima, deve servir como um chamado à ação, e não como motivo para conformismo. “Uma mulher que chega pode abrir uma porta. Mas quando muitas mulheres chegam, elas podem mudar a própria estrutura. É esse movimento que eu quero ajudar a construir”, conclui.
Resenha: Priscila Ferreira

