A fila se resolve antes de existir: por que fortalecer a Atenção Primária é estratégico para a saúde do DF

Quando uma pessoa chega à fila para uma cirurgia, muitas vezes o problema já avançou. Quando espera meses por um especialista, pode estar convivendo com uma doença que poderia ter sido identificada e acompanhada antes. Para Fátima Sousa, candidata a deputada federal pelo PDT-DF, parte da resposta para as filas do SUS está justamente no que acontece antes delas.

“A fila se resolve antes de ela existir”, defende a enfermeira sanitarista, que quer colocar a Atenção Primária à Saúde no centro do debate sobre o futuro do SUS. A ideia é fortalecer uma rede capaz de acompanhar as pessoas, identificar riscos precocemente, prevenir doenças e resolver, perto de onde elas vivem, aquilo que não precisa chegar a um hospital ou a um serviço especializado.

“Não podemos organizar a saúde apenas para atender quem já está doente e esperando. Precisamos ter uma rede capaz de antecipar necessidades. Quanto mais conseguimos prevenir, acompanhar e tratar os problemas no momento certo, menos pessoas vão precisar esperar por um atendimento especializado ou por uma cirurgia”, avalia.

Uma experiência que começou no território

A defesa da Atenção Primária é também parte da trajetória profissional de Fátima. Entre 1994 e 2002, ela atuou no Ministério da Saúde como gerente nacional do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e como assessora do então Programa Saúde da Família (PSF).

O PACS, instituído nacionalmente em 1997, ajudou a reorganizar a atenção básica a partir de um princípio que Fátima considera essencial: o cuidado precisa estar próximo da população e conhecer a realidade de cada território. Posteriormente, o programa foi incorporado à Estratégia Saúde da Família.

O trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde aproximou o SUS das famílias, levando ações de promoção da saúde e prevenção de doenças para dentro das comunidades. “Quando ajudamos a construir o trabalho dos agentes comunitários, havia uma compreensão muito clara: não podíamos esperar a pessoa adoecer para depois procurar o sistema. Era preciso conhecer a comunidade, acompanhar as famílias, identificar riscos e trabalhar com prevenção. Essa lógica continua atual”, afirma.

Antes da fila, existe uma necessidade

Para Fátima, uma Atenção Primária estruturada pode evitar que situações de saúde se agravem e cheguem desnecessariamente aos serviços de maior complexidade. Isso inclui acompanhar pessoas com doenças crônicas, ampliar a vacinação, fazer diagnóstico precoce, promover saúde e organizar adequadamente os encaminhamentos.

O ponto de partida, segundo ela, é conhecer as necessidades de cada território. As demandas de saúde não são iguais em todas as regiões do Distrito Federal, e a rede precisa considerar as características da população, as condições sociais e os principais problemas de saúde de cada comunidade.

É nesse trabalho que o Agente Comunitário de Saúde continua tendo papel estratégico. “O agente comunitário conhece o território e ajuda o sistema a enxergar aquilo que muitas vezes os números não mostram. Essa proximidade é fundamental para identificar necessidades antes que elas se transformem em agravamentos, internações ou filas.”

Para Fátima, prevenir também é uma forma de enfrentar as filas. “Precisamos parar de olhar apenas para quantas consultas, exames ou cirurgias foram realizados. Também precisamos perguntar quantos agravamentos conseguimos evitar e quantas pessoas foram cuidadas no tempo certo”, assegura.

Do território ao Congresso

Sua experiência permite enxergar a saúde como uma rede integrada. Professora da Universidade de Brasília (UnB), ex-diretora da Faculdade de Ciências da Saúde e ex-superintendente do Hospital Universitário de Brasília (HUB), Fátima conhece tanto a Atenção Primária quanto a realidade dos serviços de maior complexidade.

Embora a gestão cotidiana das unidades de saúde do DF seja responsabilidade local, Fátima destaca que uma deputada federal pode atuar diretamente nas condições que sustentam o SUS: Orçamento da União, legislação, fiscalização de políticas públicas e destinação de recursos.

Para ela, não faz sentido discutir hospitais e cirurgias sem olhar para o que acontece antes. “Quem conhece a Atenção Primária e também conhece a realidade hospitalar sabe que uma coisa está ligada à outra. Quando a porta de entrada funciona bem, ela protege o paciente e também ajuda a proteger os serviços de maior complexidade.”

É por isso que Fátima defende que o debate sobre saúde não fique restrito à quantidade de consultas, exames ou cirurgias contratadas. Esses serviços são necessários, mas precisam fazer parte de uma estratégia mais ampla, que comece pela prevenção e pelo acompanhamento contínuo.

“É claro que precisamos de consultas, exames e cirurgias. Mas, se discutirmos somente quantas cirurgias conseguimos contratar, estaremos chegando ao problema quando ele já aconteceu. Precisamos perguntar também o que podemos fazer para que menos pessoas cheguem a precisar daquela cirurgia. A fila se resolve antes de ela existir”, conclui.

Resenha: Priscila Ferreira